Tem momentos históricos que não passam despercebidos pelo corpo.
Eles atravessam.
Diante das tentativas recentes de barrar a Lei 896/23, que propõe equiparar a misoginia ao crime de racismo, o que eu senti não foi apenas indignação intelectual. Foi físico. Uma ativação clara de medo e raiva, como acontece sempre que percebemos ameaça, injustiça ou ruptura de algo que levamos anos para construir.
E essa não foi uma experiência isolada.
Nas sessões, essas mesmas emoções apareceram de forma recorrente. Mulheres tentando entender o que fazer com o que sentem, muitas vezes oscilando entre reagir impulsivamente ou tentar suprimir completamente o que estava vivo dentro delas. É nesse ponto que o trabalho da neurocientista Dra. Jill Bolte Taylor se torna não apenas interessante, mas profundamente aplicável.
Jill Taylor ficou conhecida após relatar sua própria experiência ao sofrer um AVC no hemisfério esquerdo do cérebro, responsável por funções como linguagem, lógica e organização linear do pensamento. Durante o episódio, ela vivenciou uma imersão quase total no funcionamento do hemisfério direito, associado à percepção sensorial, ao corpo, à intuição e à sensação de conexão com o todo.
Ela descreve essa experiência como um estado de profunda paz e expansão, que mais tarde ficou conhecido como “derrame de sabedoria”.
A partir dessa vivência e de sua formação em neurociência, Jill traz uma contribuição importante para a forma como entendemos as emoções: a ideia de que existe uma janela fisiológica para a resposta emocional no corpo. Segundo ela, quando um estímulo ativa o sistema límbico, há uma descarga química que percorre o organismo e leva aproximadamente 90 segundos para ser processada e dissipada.
O que acontece depois disso já não é mais apenas reação automática, mas envolve, em algum nível, a nossa participação consciente ou inconsciente em manter aquele circuito ativo. Essa compreensão desloca a forma como nos relacionamos com o que sentimos.
Não se trata de controlar emoções, nem de evitá-las, mas de reconhecer o momento em que a experiência fisiológica poderia se encerrar e, ainda assim, seguimos alimentando pensamentos, narrativas e estímulos que prolongam aquele estado. No entanto, há um fator contemporâneo que complexifica esse processo.
A exposição constante a redes sociais e fluxos intensos de informação mantém o cérebro em um estado de ativação fragmentada, com estímulos visuais rápidos, picos de dopamina e pouca possibilidade de integração.
O hemisfério direito, mais sensível a imagens, emoções e padrões, é altamente estimulado, enquanto funções relacionadas ao foco, regulação e tomada de decisão podem ser prejudicadas com o uso excessivo. Isso cria um cenário propício tanto para a hiperativação emocional quanto para a dessensibilização.
De um lado, pessoas presas em ciclos repetitivos de indignação, medo ou ansiedade. De outro, um afastamento progressivo da própria capacidade de sentir, como uma resposta de proteção ao excesso. Nenhum desses caminhos sustenta presença.
E talvez seja aqui que a principal contribuição dessa conversa se revela.
Entre o estímulo e a resposta, existe um espaço.
Nem sempre amplo, nem sempre fácil de acessar, mas existente.
É nesse espaço que a resposta deixa de ser apenas automática e passa a ser, ainda que minimamente, escolhida.
Desenvolver essa percepção não elimina a dor do mundo, mas transforma a forma como ela nos atravessa.
E, em tempos de estímulos constantes e emoções amplificadas, talvez essa seja uma das habilidades mais importantes que podemos cultivar.
A pergunta que permanece não é se vamos sentir, mas o que fazemos com aquilo que sentimos depois que o corpo já teve tempo suficiente para processar.
E essa resposta, ainda que sutil, começa a ser construída na forma como escolhemos voltar, repetidas vezes, ao momento presente.
